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11:39 AM
by SERGIO LUIZ SIMONATO
A PRIMAVERA
Atravessar os campos de futebol e os trechos de mato que os intermediavam. Moitas de mamonas, arbustos de mato ruim que resistiam aos passos diários, permitindo apenas um caminho entre eles. Um terreno com restos de uma construção abandonada dava acesso a rua Demétrio. Aí era só virar a direita e chegava-se logo na Biblioteca Municipal.
As tentações pelo caminho eram grandes. Afinal alem dos campos de futebol, aquelas moitas proporcionavam bons esconderijos para as brincadeiras de mãe da lata, o agora chamado de esconde esconde. Tinha também o arbusto de uns 50 centímetros de altura, com uns pontos brancos nas pontas, do qual nunca soube o nome, mas que era muito útil, pois ao crescerem um em frente ao outro no caminho, permitia que se dessem um nó em uma ramo de cada pé. Criando uma armadilha responsável por muitos tropeços. Os tombos era espetaculares quando o “inimigo” vinha correndo (meu primo que o diga).
Mas, deixava tudo isto para trás e ia quase todas as tardes até a biblioteca, quem sabe iniciando ali uma paixão pelos livros que me acompanha até hoje. O que mais me atraia até ali era a enorme quantidade de jogos à disposição da meia dúzia de freqüentadores daquele lugar.
Vera, uma crioula forte, era a servente e nos tratava com muito carinho, preparando alguns lanches e ficando de olho para que não estragássemos os brinquedos. Havia uma orientadora para nos indicar livros e para verificar se liamos alguma coisa, pois só era dada permissão para entrar na sala de jogos quem havia lido alguma coisa. A cada dia lia uma nova história, pedindo algum livro que depois de rapidamente folheado, era devolvido.
Apesar da paixão pelos livros que me acometeu mais tarde, devo confessar que os jogos eram o que mais me atraia naquele local. Não havia daquilo em casa.
Como era freqüentador assíduo, um dia fui chamado a participar de uma peça infantil: "A primavera e as rosas". Peguei um papel (de coadjuvante vá lá), mas importante. Afinal era o jardineiro. Acredito que nesta minha única experiência teatral devo ter atingido o máximo da carreira; Se vivo fosse Shakespeare, haveria de me convidar para interpretar seus textos.
Ficava no palco a tomar conta das flores e a fingir que as regava, com um pequeno regador na mão, enquanto chegava a primavera. As flores eram algumas crianças menores que eu e que imitavam flores murchas, que as minhas águas não ajuntavam. A primavera era uma menina morena chamada Rose, do meu tamanho. Ela então pegava do meu regador e fazia florescer as rosas murchas. Minha água ficava muito melhor quando era ela que portava o regador.
Não recordo se algum parente chegou a assistir esta performance, mas acredito que não. Todos em casa trabalhavam, e não havia tempo naquele tempo para estas demonstrações.
Aquela biblioteca da Praça Ituzaingo nem deve existir mais, mas se lá estiver é bom que ainda esteja a plantar a semente do amor a leitura em crianças como eu fui. Quanto à Rose, minha primavera, alguém pode ter estranhado a forma como eu descrevi a forma que ela fazia o meu regador funcionar. É que a memória se confunde e pula alguns anos depois, já no quarto onde eram estocados algumas embalagens do Laboratório Ayerst. Lá, num sábado de manhã estávamos a fazer horas extras, conferindo estoques. E, enquanto o notista e a notista se divertiam no banheiro do escritório, eu e a outra notista que vinha a ser a antiga primavera, nos divertíamos no depósito, mas isto já é uma outra história.