Esvaziando gavetas

Sábado, Outubro 11, 2008


Quanto tempo sem aparecer! Por onde andavas?
Esses micros falíveis, que quebram, pifam e somem, levando consigo toda memória recente. Escleróticos que são.
Vamos retomando aos poucos.
Neto nasceu, netos cresceram.
Crises se foram, novas se instalaram.
Então, mais um pedaço do passado
ATRITOS

Nomes? Germano, Dario, Edenir, Rato. E outros. Onde estarão? É lógico que os times tinham muito mais gente. Mas se perderam no turbilhão do tempo. Estavam lá, brincavam nos campinhos, estão dentro da memória, mas não querem vir à luz. Tinham mais dois, mas não pertenciam a categoria de colegas, Seriam os amigos: Paulo e Manoel. Com estes havia um retorno mais imediato depois das brigas. E pouco a gente jogava bola.
Moravam todos por ali e se encontravam sempre no campinho. Germano e Dario eram tio e sobrinho. Tinham a mesma idade. Nas brincadeiras estavam sempre juntos e faziam uma dupla insuportável. O que eram ruins de bola, eram bons de briga. Não da para saber se individualmente também eram bons de briga, pois, nas poucas vezes em que apareciam sozinhos, não se metiam em encrencas.
Várias e inúmeras vezes voltei machucado para casa, por ter confrontado com eles. Muitos jogos não chegavam ao fim, pois eles tentavam ganhar no grito o que não conseguiam na bola. E, mesmo aconselhado pelos outros colegas, não aceitava esta imposição.
— Para que você se mete? Sabe que eles ficam te provocando só para te pegarem, e você ainda entra na deles.
Mas, como abandonar aquele gramado vistoso e a bola que corria solta todas as tardes após a escola. O negócio era encarar e torcer para que Dona Miguelina os chamasse antes da nova briga, o que, mesmo raramente, às vezes acontecia.
Dona Miguelina, uma senhora muito gorda, era mãe de um e avó do outro. Morava quase na esquina, numa casa caindo aos pedaços, e ficava grande parte do dia sentada numa caldeira, na calçada, gritando os nomes dos garotos e de sua filha Berta.
Esta rotina de jogo - briga - apanha iria continuar por muito tempo não fosse uma das visitas do Zé Augusto, meu primo. Na época este primo já tinha fama de ser encrenqueiro e briguento. Ex aluno de colégio interno, de onde fugira ou tentara fugir, havia aprendido a brigar e bem. Muitos anos depois fomos os únicos que se deram bem numa grande briga na porta de um baile, onde, mesmo tendo ganho a parada, apanhei bastante.
No dia desta visita fomos ao campo de futebol para brincar e encontramos o resto da turma. Após alguns minutos começou a provocação e desta para as vias de fato foi rápido. Os dois vizinhos vieram secos para cima de mim, só que desta vez tinha alguém do meu lado que além de não fugir do pau, sabia brigar.
A surra que o maior deles, Germano, levou foi tão grande que levou a gorda Miguelina a reclamar com minha mãe, e teve como conseqüência dos dois nunca mais me provocarem. Vale explicar que o Zé, que era baixinho, pegou o maior, e eu fiquei com o menor. Foi até covardia. Os narizes que sangraram ficaram muito tempo como salvo conduto.
— O meu primo vai voltar neste fim de semana.
Mas, logo o tempo passou, e mais depressa do que se percebia e já comecei a trabalhar e a ter outras obrigações, e só conseguia chegar no campinho bem mais tarde, com o jogo quase acabando. Apenas um outro gato pingado permanecia até a escuridão tomar conta do terreno, ou até as vozes das mães chamarem para jantar.
Ali fiquei muitas vezes a brincar de luta com um moleque mais novo que eu, numa brincadeira que só terminava quando a mãe dele chamava.
Este mesmo primo que me ajudou, reclamou tempo depois que nas brincadeiras de pegar, onde se passava correndo pelos caminhos entre os arbustos, as armadilhas bem preparadas davam-lhe grandes tombos, mas isto já é uma outra história.


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